'Vivo debaixo da esperança de um dia poder vir a ser o que hoje não sou. Faço dos meus entretantos esperas sucessivas que não consigo controlar. Vejo os meus dias escurecerem à medida que te vejo partir. Porém, sem te deslocares . Partes de mim, numa fuga súbita sem porquês. A chuva que se reflecte no meu olhar aumenta com o passar do tempo.
O teu cheiro, já não conheço. O meu mundo, já não te sabe a nada. O nosso dia, passou a ser o teu dia.
E vou caminhando sobre uma ponte sem corrimão, sob um abismo opaco.
Vais e vens, desmarcas e gozas. Fazes do nosso tempo uma fachada, que me penetra como um sonho, algo completamente platónico que, no fundo, não vai além do encontro que proporcionas-te invulgarmente ao meu coração. Depois apagam-se as luzes, um frio paira no ar, a noite chega mais cedo. Agora já não te sinto, já não existes ali. Foste, como (tanto) querias.
E não voltas, não queres , nem nunca vais querer. Nada mais do que aquilo que no teu mundo existe, que vem de ti.
És tu, não precisas de alicerces. És somente tu, que fazes barreira contra o medo. E continuas, no entanto, no meu mesmo lugar. '
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